Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Crônica. Mostrar todas as postagens

sábado, 2 de outubro de 2010

Fortaleza - Moscou

[Foto Moscow, de Daphotos]

Sonata de Brahms. A eternidade e o efêmero. A sobriedade da pianista e o ímpeto do violino. O menino e a donzela.
Nesse instante de puro deleite, um acorde de alguém que dorme: sim, para perturbação dos presentes, um indivíduo emite sua incômoda percussão, em alto e (nada) bom som. Recostado no espaldar, cotovelo,mão e queixo pendidos; sem dar-se conta alcança a profundidade do sono e o indesejável sonido. A donzela à sua frente puxa-o pela perna da calça, temendo que aquele repertório particular e inusitado repercuta no palco, para desconcerto geral. Mas...
Eis que um acorde agudíssimo desperta nosso Adamastor. Desconcertado diante dos que lhe miram, pigarreia a baba que estava por escorrer, endireita-se na cadeira. Todavia, a música é tão suave... que, mais uma vez, embala o sonolento titã. Novas percussões. Mais brandas dessa vez.
Segue a sonata. A música evoca eras remotas, aproxima distâncias. Nem mesmo o imprevisto estranhamento sonoro põe fim à magia daquele momento. Ao lado da donzela dos trópicos, um menino dos Montes Urais. Sem partilharem o mesmo código linguístico, não precisam falar para comunicarem-se: olham-se e sorriem.
Último acorde. Cessa o bramido. Aplausos.

27 de julho de 2003

Pezinhos frenéticos

[Foto Safe your foot, de Aqbarsic]

Domingo. Em Fortaleza, um sol de rachar! Acontece o ENADE (Exame Nacional do Desempenho Estudantil), que avalia a qualidade do ensino superior no país. A cena se dá numa sala de aula de uma grande escola da cidade.

Há poucas pessoas na sala de número 202. Talvez cinco ou seis. Um candidato sentado à frente está assaz inquieto. Depois do ruge-ruge do pacote de recheado, é a vez das sandálias de borracha, que insistentemente ditam um novo compasso que, para a ocasião, soa um tanto perturbador. Uma das fiscais percebe o incômodo dos demais e resolve intervir, mas fica sem jeito, teme constrager o candidato que, sendo aluno de Direito, pode se achar no direito de incomodar todo mundo.
Lê, escreve, come, bebe e, no compasso, pezinhos frenéticos.
Sem cerimônia, uma candidata, possível e certamente amiga do outro lá, irrompe:
-Joaquim, Joaquim! Pára com isso!
E, dessa vez fitando a fiscal, Joaquim suspende o compasso das sandálias de borracha, seguindo o ritmo dos seus pezinhos frenéticos descalços...

Je suis desolé!


[Foto Lord Morpheus, de Washington Forte]

Je suis desolé!
Minha gatinha não é mais minha gatinha. Ela agora é ele.Coraline virou Morpheus.
Tudo aconteceu depois de uma queda de um pé de pau de quase 3m na vila onde moro. O bicho, até então bichinha, subiu e não conseguiu descer, de modo que ficou aos miaus mais feios do mundo. Lá vou eu subir num banco, pegar um rodo e pelejar para fazer o resgate. O sangue subiu à cabeça, a raiva cegou e, em vez de puxar, empurrei. A criatura caiu e machucou a patinha. Quase morri de chorar.
Hoje, depois de o veterinário prestar os primeiros-socorros, veio a revelação:
- Doutor, ela vai ficar bem?
- Ela? Não. Ele vai.
Meu mundo caiu.

Zen doida!

[Foto YoGa, de Dig Pho Art]

Aula de Yoga. Sesc da Clarindo, 18h. De um lado a Duque de Caxias, do outro o Mercado São Sebastião. Perfeito. Relaxamento inicial com um bando de mulher chegando atrasadas. Finalmente a aula.

Depois de uma série de surya, posturas de força da Hathayoga, novo relaxamento, dessa vez, pra valer.

"Fique numa posição confortável. Agora solte a cabeça, relaxe os músculos da face (cadê os olhos obedecerem! Pareciam querer sair do globo ocular!), respire suave e profundamente. Relaxe o maxilar e deixe a língua solta..."

Mininu, num é que fiz o que a professora pediu: esqueci os olhos, pois continuavam inquietos, mas o resto relaxei geral. Eu relaxei tanto que liberei morfina: a língua ficou dormente. Cadê eu conseguir falar depois da aula! Soltei a língua, mas esta acabou ficando "plesa".

Na saída, pedindo a Deus que ninguém falasse comigo, despedi-me do povo qual uma lady: um sorriso e um aceno. Então saí bem zen, zen doida.

Beijos, meu caro.

Até uma próxima.

Lu

Hora do Ângelus

[Foto Twilight of the Gods, de Muad Nait]

Salve, caríssimos.

O ócio é osso. Por isso, resolvi compartilhar com vocês, neste momento precioso do almoço já comido, um que foi duro de roer.

Hora do Ângelus. Em vez de ave-maria, catraca. Pra lá, pra cá, ad infinitum... A sinfonia do trânsito também ajuda, afinal é hora de relaxar.

Bem, amigos e amigas, é mais um dos meus fragmentos prosaicos por ocasião de mais uma aula de ioga no Sesc.

Cada vez mais, tenho percebido o quanto a ioga é sinetésica. Primeiro foi a língua dormente; depois, a dor de cabeça, a agonia nos ouvidos, e agora um singular incômodo olfativo. Não bastasse o aroma do São Sebastião, o do vizinho era algo assim... impregnante. E desagradável.

O nariz começou a coçar. Tive de redobrar a concentração a fim de evitar o quase inevitável espirro. Quando finalmente começou a série de asanas, as posturas da ioga, pude anestesiar a gastura.


Hora da Meditação. Pensei: “Não podíamos pular essa parte só por hoje?” Passou o efeito anestésico, e o desodorante vencido ou a falta dele por parte do meu vizinho voltou a impregnar. Coceira, gastura, impaciência. A vontade de sair correndo era imensa. Mas resisti. Só quase gritei quando a professora disse:

- Respire profundamente...

Cá comigo, respondi, quase desmaiando: “Não dá!!!”

A negada pensa que é piada, mas é verdade. Queria ver se fosse com vocês.

Beijo

Lu