sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Da matéria dos sonhos - Inception (A origem)


Da matéria dos sonhos - Inception (A origem)

Criai ânimo, senhor; nossos festejos terminaram. Como vos preveni, eram espíritos todos esses atores; dissiparam-se no ar, sim, no ar impalpável. E tal como o grosseiro substrato desta vista, as torres que se elevam para as nuvens, os palácios altivos, as igrejas majestosas, o próprio globo imenso, com tudo o que contém, hão de sumir-se, como se deu com essa visão tênue, sem deixarem vestígio.
Somos feitos da matéria dos sonhos; nossa vida pequenina é cercada pelo sono.

Shakespeare, "A Tempestade", Ato IV, cena I

Os fetos sonham dentro do útero. A partir do oitavo mês de gravidez, os sonhos podem ocupar 30% do tempo em que dorme, nos adultos, essa fase ocupa cerca de 25%. São sonhos sensoriais, baseados nos sons que os cercam, na temperatura, no quanto sacolejam em uma viagem de ônibus. Os recém-nascidos sonham com o útero, nós também. Sonhamos para digerir os dias, as horas e os momentos. Sonhamos com coisas supostamente esquecidas, com desejos inconfessáveis, com o desconhecido que somos.

A oniromancia prevê o futuro através da interpretação dos sonhos e goza de grande simpatia no mundo judaico-cristão: São José fora avisado em sonho de que sua esposa Maria iria conceber uma criança e que o menino seria de Deus, que devia relaxar. Em 1901 Freud lança “A interpretação dos sonhos”, uma publicação polêmica. Para o alemão, os sonhos seriam meramente uma fachada, por trás dela estariam seus reais significados: desejos irrefreáveis, perversões e vontades que jamais passariam por nossa censura moral sem nos deixar de aterrorizados e a seriamente perturbados.

Acordados, estamos sob o estado de vigília, o contrário disso é dormir e, de preferência, sonhar. O sono humano é composto por 5 estágios cíclicos que podem durar de 90 a 120 minutos e se repetir quatro ou cinco vezes durante o período em que estamos ali quietinhos em baixo das cobertas. O mais intenso desse estágio é o 5º, quando nele, nossos olhos se movimentam de forma frenética. Por conta disso é chamado REM (Rapid Eye Movement) e é nele que os sonhos se desenvolvem; é nele que correm soltas as imagens e sentidos de nosso inconsciente.

É engraçado que sejamos encontrados justamente lá, onde não há controle, onde o mais perturbador e mais delicioso dos pensamentos, a mais aterrorizante das memórias podem nos atacar. Um falo gigante caindo sobre nossas cabeças, uma volta ao útero, uma culpa suprimida. Saber é agir, reza forte a psicanálise, tomar consciência (literalmente) do significado de um pênis gigante aparecer fantasiado de havaiana em seus sonhos recorrentes, embora se configure uma experiência desagradável, é a melhor saída para eliminar uma neurose com praias.

Então, sem aviso, nos aparece Cristopher Nolan. Nolan é um homem corajoso, ou imprudente, dizem, o que dá no mesmo. A temática dos sonhos já foi tão explorada nos cinemas, por tão grandes gênios que tentar reerguer um assunto de tamanha sutileza, ainda mais num blockbuster, poderia ser fatal. Mas A Origem (Inception, EUA, 2010) é um filme que vai ficar. Talvez não a princípio, a princípio ele é tão apenas um filme com tiros e explosões e um final que te faz levantar da poltrona com um bocadinho de raiva, mas então sua forma se revela e ele reverbera, vai ficar... martelando na sua cabeça. Ganha visões e comentários, vence novamente o fascínio dos sonhos, da realidade e do delírio.

Inception consegue ser, simultaneamente, metarreferência (ao falar em si, sobre si) e analogia (à psicanálise). Je ne regret rien, é a canção que traz de volta os personagens para o mundo real, o da vigilância. Cobb (personagem de Di Caprio) assim o faz, completa seu trabalho psicanalítico, chegando no mais profundo de seu estágio inconsciente/onírico para descobrir que não, de forma alguma, não deve se arrepender de nada. Deve agir, voltar e não ouvir o desejo oculto de Mal, sua mulher morta. Mal (Marion Cotillard) é o próprio mal mesmo (a escolha do nome revela a metarreferência), o desejo de morte e de negação de si, de suas memórias. Já Fischer (Cillian Murphy), contraponto de Cobb, fachada de Cobb, representação de Cobb, corajosamente vai ao fundo de si e resgata uma cara lembrança dos tempos de criança, reconcilia-se com o pai renegando o que de triste ele era. Resgata a infância e a si mesmo, a vida, retoma a posse de suas escolhas.

Está tudo lá nos nossos sonhos. A matéria de que somos feitos, nós mesmos girando incessantemente, buscando emergir sobre a consciência, sobre a cultura, a educação, os medos, tentando implantar um tirânico império dos desejos. Foi com essa ideia implantada nas nossas mentes que atravessamos esta semana em um olhar mais demorado sobre A Origem, uma narrativa fantástica que se dobrou sobre si como aquela cidade curvou suas ruas, colocou para o alto os prédios e fez os carros transitarem sobre o céu. Caminhamos nela. Cinema para fazer sonhar acordado, nos propôs Nolan, uma viagem que dificilmente vamos esquecer.

Publicado em cinema por Priscilla Santos em 30 ago 2010

A essência do homem

Inception (A origem) - a essência do homem

A mente humana, por sua natureza enigmática, sempre foi alvo de extrema curiosidade. Um ambiente sobre o qual nada conhecemos, mas que nos define. Obviamente seria tema de inúmeras investigações por parte da ciência e, também, das artes. O Cinema explora a temática há muito tempo, desde Bergman até M. Night Shyamalan. É onde está a origem de tudo o que somos. “A Origem” nos mostra a essência da essência.

Escrito, dirigido e produzido pelo diretor britânico Christopher Nolan (Batman Begins), “A Origem” (Inception, EUA, 2010) ostenta um elenco encabeçado por Leonardo Di Caprio, com nomes como Ellen Page, Marion Cotillard, Tom Berenger, Michael Caine entre outros. O enredo é considerado complexo. Talvez complexo demais para uma superprodução, um blockbuster. O que não é comum. Mas é exatamente o que fez o diretor se destacar, com maestria, na cena hollywoodiana. Os movimentos de câmera usados por Nolan, a técnica, a música... são fatores que determinam o desenvolvimento da trama, sendo tão importantes quanto as próprias personagens.

O filme fala de sonhos. De implantar idéias e roubá-las. A ação vem de ponta a ponta. No entanto, o interessante em “A Origem” é que não é, em absoluto, um filme de ação. A ação é um pano de fundo para a elaboração de uma temática mais complexa: a mente humana. O diretor explora nossos medos, segredos, memórias e idéias em um intrincado enredo. Seu foco está em mostrar ao espectador a extensão da elasticidade de nossa mente.

A essência do Homem - pensamento - é capaz de deformar-se à medida que este experimenta as diferentes percepções que o mundo oferece. Por isso, todos os nossos conceitos podem ser extremamente vulneráveis. A idéia redefine-se por diferentes formas de inserção, mas é ainda mais suscetível a essa “redefinição” quando está em seu lugar primitivo - a subconsciência.
E por onde acessar essa subconsciência, templo das concepções ainda imperfeitas, dos esboços do conhecimento, onde tudo ainda está em formação?

No ambiente etéreo do filme esse acesso é possível pela invasão dos sonhos, onde residem as lacunas de nossa existência, as quais são meticulosamente preenchidas com interferências, seja implantando ou extraindo idéias.
Em uma realidade concreta, isso se dá naturalmente pelas circunstâncias, na vida rotineira. Obviamente, não temos nossos sonhos invadidos [ainda], como vemos no filme, mas crescemos alvos de uma manipulação implacável, e imperceptível, natural da coexistência humana. A Origem sugere objetivamente este paralelo.

Nossa mente é bombardeada a todo instante, idéias estão sendo implantadas, geradas pela proliferação de modelos ideológicos. A sociedade é uma rede, constituida de indivíduos que, por meio de unidades culturais que habitam a mente humana, desencadeiam uma reação virulenta de implantação de idéias. Propagandas, tradições, artes, etc., tudo isso faz parte desse processo. Nossa mente é literalmente arquitetada por esses fatores, gerando as mais variadas formas de significação do homem, como a fé, a moral e a cultura.

Os mais observadores perceberão que o filme não somente aborda esse assunto, como ele próprio nos seduz implantando idéias em nossas mentes. Idéias que já absorvemos e que nos convidam a reflexões intermináveis sobre o real e o irreal. Sobre o abstrato e o concreto. Sobre o conceito de realidade. E é por isso que estamos a falar sobre ele. Bem-vindo à interferência de sua própria mente.

publicado em cinema por rejane borges em 27 ago 2010

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Que se amavam tanto


Que se amavam tanto

Ele achava que ela era ele. Ela achava que ele era ela. Cada um a seu tempo, sem ainda se conhecerem, pensaram o mesmo de seus felinos. Ambos mantiveram, por algum tempo, suas convicções intuitivas.
Mas um dia a verdade veio à tona, sem mais nem menos arrodeios. Dele partiu de uma amiga que, só de olhar o bichano, declarou:
- Que gato, menino? É uma gata!
E Reinaldo virou Diadorim. Talvez fosse melhor dizer revelou-se, qual se conta por aí.
Dela, três meses depois, já no compasso dele, a resposta chegou atravessada. Primeiro disseram pra ele, só então ele disse pra ela. Partiu de um veterinário, chamado para examinar o animal que havia sofrido uma queda:
- Doutor, ela vai ficar boa?
O médico examinou e disse:
- Ela? Ele vai ficar bom.
E foi assim que Coraline virou Morpheus.
Como era de costume, ele saía de casa logo cedo para seu passeio matinal. Às vezes demorava mais, às vezes menos, mas sempre voltava. Outro dia, porém, não voltou. Ela chamou, rezou, chorou, perguntou às vizinhas, mas ninguém sabia dele. Que foi feito do seu gato? Teria fugido com ciúme da gatinha visitante, vítima de atropelamento, de quem ela também resolveu cuidar? Poderia ter sido roubado, como suspeitam alguns, pois era um dos gatos mais bonitos do lugar? Ou teria sido morto, como no fundo ela acredita? Morpheus encantou-se, deve ter voltado para a Gruta do Sono, de onde saiu, ou foi levado para o País dos Gatos, onde deve ocupar o posto de lorde, que lhe era próprio.
Hoje foi a vez de Diadorim. A Moira lhe teceu a mortalha em rubro manto, depois de já ter sido visitada pela Dama Negra quando perdeu seus filhotes e precisou passar por uma esterectomia. Uma van lhe cortou o fio. Em vão ele tentou salvá-la. Nas mãos, o corpo molinho, os pêlos e o sangue...
Diadorim, agora, repousa no quintal de casa, ganhou um leito de areia e pedra, como convém a uma heroína do sertão, faz jus ao nome.
Ele a amava tanto... Ela também o amava. Gostava de sumir, mas qual Morpheus, também voltava. Ela o amava tanto... Ele também a amava...


Luciana Sousa
Fortaleza, 27 de dezembro de 2010


Para Lô, com sopesada dor...